Pedro Jóia e eu

Lá atrás, quando comecei a conceber “O Que Sobrou do Amor” na minha cabeça (na fagulha de inspiração do texto “Fugidia”, de minha amiga Leila), andava ouvindo muito fado. No meu parco conhecimento, ouvia Amália Rodrigues, Mariza, um pouco de Ana Moura e canções instrumentais que encontrava por acaso no YouTube. Foi nessa época que ouvi falar do violonista português Pedro Jóia.

Ao ouvir a versão que Ney Matogrosso fez de “Oriente” (Gilberto Gil) no disco “Canto Em Qualquer Canto”, fiquei boquiaberto com o arranjo suntuoso de violões e especialmente com um outro instrumento de corda que não conseguia reconhecer. Mais tarde ficaria sabendo que era Pedro, tocando alaúde. Um instrumento que até então me parecia mítico! Isso aconteceria de novo quando ouvi o disco “Vagabundo”, a famosa parceria de Ney com o grupo Pedro Luís e a Parede. Os violões de “Noite Severina” e “O Mundo” me assombravam. Como alguém conseguia tocar um violão como se tocasse dez violões ao mesmo tempo?

Calhou que ao desenvolver o arranjo de “O Que Sobrou do Amor”, que já demonstrava vigor o bastante pra virar uma canção marcante, imaginei como seria ter aquele violonista transformando meu arranjo tosco no violão de nylon em um flamenco de verdade. Logo fui descobrir que Pedro Jóia é considerado um dos maiores violonistas portugueses, formado no Conservatório Nacional de Lisboa, versado no fado e no flamenco, com discos gravados, muitas participações estreladas. Logo deixei a ideia de lado, sabendo que era sonho impossível.

Até que chegou a última terça, em que fiquei sabendo que ele faria três shows no SESC Vila Mariana, no fim de semana. Alguma coisa me disse que era agora ou nunca. Postei uma mensagem tímida em sua página no Facebook, já certo de que ele provavelmente não iria nem ler, nem ficar sabendo. Em poucas horas havia um e-mail dele em minha caixa de entrada. Marcamos a gravação para hoje, sábado.

E hoje foi com certeza um dia muito marcante na minha vida. Fico feliz e honrado em conseguir trabalhar com pessoas que não apenas são extremamente talentosas e profissionais naquilo que fazem, mas que também são humildes, cordiais, simpáticas e generosas. Pedro não apenas adicionou um brilho incrível à minha canção, como também me fez lembrar como há grandes artistas que passam praticamente despercebidos por boa parte do público, e injustamente.

Querem abrir seus horizontes? Procurem ouvir “À Espera de Armandinho”, seu último disco solo, de uma beleza incrível.

E pra quem estiver em Sampa, tem mais um concerto amanhã (domingo), 18h, no SESC Vila Mariana. Vale MUITO a pena.

Obrigado, gajo!

P.S.: Depois libero um trecho da gravação, povo!